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Prefácio de:
Luiz Eduardo Pesce de Arruda - Coronel PM (veterano)
Doutor em História da Cultura pela Universidade Presbiteriana Mackenzie

“De trinta e Dois: para nós,

Pálio de luz do civismo,

Ave altaneira: albatroz

Que nos afastou do abismo”.

F. de A.

Frances de Azevedo, minha amiga e confreira em três instituições: na Sociedade Veteranos de 32 – M.M.D.C., na Academia Cristã de Letras e no Conselho de Civismo e Cidadania da Associação Comercial, resolveu honrar-me com a missão e a deferência de prefaciar seu novo livro, intitulado: “Tributo aos Jovens de 32: Poemas”.

Nessa obra, Frances reuniu obras inéditas e outras, algumas que declamou quando convidada a abrilhantar eventos com seu talento luminoso, outras até então esparsas, publicadas em espaços de cultura, revistas, periódicos e sites.

Nesta coletânea de poesias, Frances adotou como bússola exaltar a contribuição – por vezes injustamente esquecida – em sangue, suor e lágrimas que uma geração, que apenas desabrochava para a vida, ofereceu sorrindo em holocausto a São Paulo e ao Brasil.

Ao rememorar esses heróis, Frances não exalta apenas os soldados, como o cadete Ruytemberg Rocha, da Força Pública, ou os voluntários civis tombados na refrega. Exalta também as famílias, as crianças, os jovens, os escoteiros como Aldo Chioratto, um paradigma do movimento escotista.

Chioratto, lembrado por Frances, era escoteiro em Campinas, morto em um bombardeio aéreo da ditadura, e foi reconhecido como o mais jovem combatente paulista morto em ação, a dezessete dias de completar seu décimo aniversário.

“Aqueles que não voltaram,

Hoje envoltos na saudade,

Com fé cívica acenderam

A chama da liberdade! ”

F. de A.

Dentre os poetas, resgata com toda justiça a memória do professor universitário, misto de guerreiro, poeta e promotor cultural Francisco Fabiano Alves, que sobreviveu à guerra e atingiu idade provecta, sem jamais perder o entusiasmo que, aos trinta e cinco anos, fê-lo trocar, como o fizera antes, em 1924 e 1930, a cátedra da notável Faculdade de Farmácia e Odontologia de Itapetininga, que ajudara a fundar, pelo frio das trincheiras de Cambuí.

Rememora o sacrifício das mulheres, das mães, dos profissionais de logística e saúde, a contribuição da indústria e do comércio.

Reserva, com todo louvor, um espaço mais que merecido aos combatentes da “Legião Negra”, homens e mulheres afro-brasileiros que, superando a realidade assimétrica e injusta a que os séculos anteriores lhes haviam submetido, escreveram, em 1932, páginas imortais de bravura, estoicismo, ternura, orgulho e dignidade insuperáveis.

Evoca os símbolos: o Vinte e Três de Maio, a Bandeira, o Monumento Mausoléu do Soldado Constitucionalista, cuja descrição simbólica aloca na introdução de sua obra, guiada pelas mãos mais que legítimas do neto do escultor, nosso amigo Paulo Emendabili Carvalhosa.

Reserva, com toda justiça, a evocação carinhosa dos núcleos M.M.D.C que, no presente, dedicam-se a preservar a memória e os ideais do Movimento, citando, como não poderia deixar de ser, o professor José Carlos de Barros Lima, um advogado e educador do bairro da Lapa, cuja paixão, aliada à de sua saudosa esposa, a eminente professora Margarida, ajudou a preservar, às suas expensas, parte significativa da memória material de 1932, em um momento em que o risco de pilhagem, por maus paulistas gananciosos, ameaçava destroçar referido acervo, em troca de trintas moedas.

Frances exibe em seu perfil de WhatsApp uma foto, um “instante congelado no tempo”, no dizer poético do maior pesquisador da história da fotografia brasileira, o professor Boris Kossoy.

Nessa imagem quase surreal, ela está, sorridente, literalmente ao lado de uma leoa. A Frances olha com doçura e sorri, a leoa retribui o olhar.

Penso que, ali, a leoa reconheceu em Frances uma irmã: Como a leoa, Frances exibe a coragem protetora, na defesa da família, dos amigos, do clã e do território, na materialização do dever e da responsabilidade dos quais nunca de furtou. Como a leoa, Frances é vigilante e capaz de agir com energia, no momento preciso. Como a leoa, Frances é forte, pode ser agressiva na fidelidade da defesa de sua gente, de causa e de sua terra, mas é disciplinada, terna, líder na família e capaz de proteger, mesmo com seu sacrifício pessoal, os mais vulneráveis.

Como a leoa, a figura de Frances é edulcorada por uma aura de sutil realeza e dignidade, honra, autoridade moral e grandeza de espírito que todos os amigos de pronto reconhecemos.

E, por usar sua força com justa medida e consciência, Frances tem sido capaz de levar avante o compromisso de defender o futuro e a continuação de sua comunidade. Nós, paulistas, agradecemos.

Minha proposta: Façamos como fez Frances. Reservemos uma fração de nosso tempo para refletirmos sobre honra e sacrifício, sobre o valor de lutar, ainda que o adversário tenha mais homens e armas, na certeza de que, no final, o Direito e a Justiça vencerão, ainda que desarmados. Assim foi na Constituição de 1934. Assim é a vida.

Esta obra é um bom fio de Ariadne para nos guiar nesse caminho. Boa leitura.