Raquel Naveira

O lírio branco é o símbolo ocidental mais conhecido da pureza e da perfeição. Também representa inocência e divindade. Na mitologia greco-romana, o lírio surgiu do leite da deusa mãe Juno ou Hera. Para os judeus, é o emblema da tribo de Judá. O lírio-do-vale é uma planta discreta, que cresce em lugares baixos, úmidos e humildes. O vale é o mundo caído, o sofrimento humano, a dor, a esperança onde há sombra. A simplicidade é uma forma de beleza. Andarmos atentos pelo vale nos traz revelações. Escrevi:
Lírios brancos,
Bordados de ouro,
Balançam como borboletas
As pétalas de asas.
Lírios do campo,
Manto de arminho
Onde pousam passarinhos
E pirilampos.
Quando Cristo,
O Lírio feito homem,
Passou pelo vale,
Eles se curvaram nas hastes
Num hino de glória
E despejaram cálices de paz
Em seu caminho.
Reencontrei na leitura das primeiras prosas do poeta e dramaturgo espanhol ,Federico Garcia Lorca (1898-1936), escritas quando ele tinha entre 17 e 20 anos, na tradução de Lélia Maria Romero, esta “Oração Jesus de Nazaré”, que começa assim: “Jesus branco, Jesus puro, Jesus homem, eu te amo com frenesi. Cravo de dores, lírio imaculado, jasmim de doçura, eu te amo inteiro. Gigante do amor, verbo do verbo, luz de luzes, beija-me com tua caridade.”
Pensar que Lorca, o poeta de maior influência e popularidade da literatura espanhola do século XX, morreria tragicamente assassinado, vítima da Guerra Civil Espanhola. Os motivos são repletos de dúvidas. Preconceito por causa de sua homossexualidade? Eliminação de apoiadores da Frente Popular? Foi fuzilado e enterrado em vala comum, em lugar ignorado.
Lorca admitiu em sua Oração que Jesus era o mártir da irmandade, o Rei Sol, o Pai das Estrelas, a Alma das Flores. Por certo, o seu sangue nutriu a terra e fez germinar sobre sua cova lírios sensíveis e trêmulos.
