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Raquel Naveira

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Uno-me a todos os poetas e admiradores de Paulo Bomfim, neste ano de celebração de seu centenário, publicando a carta que escrevi em 2015 e que estará no livro:

"Cartas de amor ao Poeta", da escritora e editora Di Bonetti, a ser lançado em  26 de setembro as 10 horas da manhã, no Instituto Histórico e geográfico de SP;

CARTA A PAULO BOMFIM

Caro poeta Paulo Bomfim,
Vim do sul de Mato Grosso, uma terra dotada de esplêndida beleza natural registrada na literatura por escritores como o Visconde de Taunay, Manoel de Barros e Hernâni Donato. Terra de garças, sucuris, camalotes, guavirais e onças-pintadas. Quando cheguei a São Paulo, trazida pela necessidade de trabalho e cultura, desejei ardentemente conhecer e amar esta cidade, sentir seu coração, o lugar palpitante onde escorrem sangue e águas primordiais. Foi assim que visitei a Academia Paulista, no Largo do Arouche, onde o encontrei: um príncipe, um cardeal das Letras, um homem simples e digno, que preza a convivência e a cordialidade entre seus pares.

Ouvir sua voz, sempre emocionada e enternecida, é penetrar em bosques ancestrais, na história dos bandeirantes, que ergueram povoados e igrejas, que desceram rios em busca de novos rumos e fronteiras. É admirar quem utilizou os meios de comunicação, jornal, rádio e televisão, para testemunhar os fatos de seu tempo de forma justa e, simultaneamente, realizar uma volta proustiana ao passado paulista.

Imagino a sua trajetória, habitando vetustos casarões, sentindo o cheiro dos cafezais, registrando a arqueologia de antigas memórias, andando pelas avenidas de uma metrópole complexa, assistindo a uma imigração tensa, a crises do capitalismo mundial, a guerras, a comícios de ideias, à luta bruta por dinheiro, ao contraste entre ricos e pobres. Nada abalou sua têmpera de poeta, que muito jovem borbulhou num caldeirão antropofágico. Foi retratado por Anita Malfatti. Teve seu livro Antônio Triste ilustrado por Tarsila do Amaral
e elogiado por Guilherme de Almeida, que reconheceu em seus versos o mais profundamente significativo dos poetas de São Paulo.

Ler seus poemas é sorver a mais alta filosofia, o atavismo de mares, barcos e albatrozes que vêm de longe numa viagem através de si mesmo, movida por nervos e emoções. Porque sua poesia é de sabedoria e autoconhecimento, peregrino do vento, que se alimenta do efêmero enquanto constrói a eternidade.

Ouvi-lo e lê-lo é participar da herança paulistana, é andar com passos de espuma pelas ruas cheias de infância e de lembranças que se movem dentro de seu imaginário. É percorrer túneis que terminam em monumentos, onde se recostam anjos e mendigos.

Desejei ardentemente conhecer e amar São Paulo. Realizo esse desejo quando tenho a honra e a alegria de abraçá-lo, poeta. Como o faço agora, de forma afetuosa e fraterna, no seu aniversário, nesta data de primavera,

Raquel Naveira

*Carta escrita para o livro Cartasde amor para o Poeta, organizado pela jornalista Di Bonetti, para o aniversário de 89 anos do poeta Paulo Bomfim, no dia 30 de setembro de 2015.

E agora, neste ano de 2026, será celebrado o centenário do poeta. A abertura aconteceu no dia 10 de setembro, às 18h, na Academia Paulista de Letras, com leituras de Mariana Ianelli e Bruna Lombardi, além de saraus e inauguração de estátua no Tribunal de Justiça de São Paulo, onde ele trabalhou por vários anos.

Muito bom esse amor, esse reconhecimento por um poeta que marcou a literatura brasileira.