Raquel Naveira
ilustração com IA
É como se eu tivesse vivido no Egito Antigo. Se fecho os olhos, posso ver o rio Nilo, um dos maiores do planeta, fertilizando as bordas com uma lama pegajosa, onde brotam espigas de trigo e grãos de cevada. Os barcos alados, de duas velas, navegam cheios de pessoas, pedras para construção das pirâmides e dos templos, mercadorias. São navios de papiro, embarcações feitas de talos de papiro, calafetadas com betume. Levam embaixadores, mensageiros velozes a nações poderosas de homens altos, formosos, de pele negra e luzidia. Etíopes, talvez, pois governaram o Egito, em algum ponto entre o Nilo Branco e o Azul. Grandes cidades iam crescendo às margens do Nilo, essa fonte sagrada de vida capaz de regar o deserto e fazê-lo florescer. Era tamanho o meu júbilo diante dessa cena que escrevi:
Meu dia é tranquilo
À beira do Nilo.
Passeio de barco
Entre aves
E papiros.
Saboreio vinhos em frescos jardins,
Enfeito-me com guirlandas
De rosas e alecrins.
O Nilo,
Aberto em delta,
É um deus de leis corretas
Que ama o trigo
E as festas.
O balcão me orienta
Para a variação da tarde,
É belo ver o sol no rio
Jorrando luz em cascata.
A morte não me preocupa:
Boas coisas me reserva
Meu túmulo imponente,
Na terra tudo é sonho e erva,
Justa é a acolhida no ocidente.
Meu dia é tranquilo
À beira do Nilo.
Mas, aos poucos, tudo mudou. Houve declínio. O fim dessa civilização aconteceu de forma gradual, com invasões de assírios, persas, macedônios, trazendo crises internas e perda de autonomia política. A era dos faraós foi sugada pelo sorvedouro do tempo. Uma nuvem de insetos roçou as faces, os olhos desenhados a carvão, as coroas de serpentes.
A figura mais famosa desse período melancólico foi a rainha Cleópatra. Ela tentou desesperadamente manter a independência do Egito por meio de alianças amorosas, primeiramente com Júlio César e depois com Marco Antônio. Foram derrotados por Otávio, o futuro Imperador Augusto, na guerra civil romana. A batalha naval de Áccio (31 a. C) selou a derrocada do poder de Cleópatra e Marco Antônio, que se suicidaram. Ah! Já posso imaginar a frota, o barco que conduzia o desgraçado casal. Cleópatra reclinada no seu divã dourado, de deuses entalhados. Marco Antônio na popa. Arcos e flechas cruzando os céus, chuvas de lanças, dardos com pontas de bronze. No convés, homens com armaduras de linho endurecido se atirando sobre os soldados romanos. Todos empunhando clavas e adagas, rasgando corpos num banho de sangue.
Testemunhei tudo. Fascinada, coloquei esses nomes nos meus filhos: Augusto e Otávio. A filha, Letícia, é uma lembrança latina. Uma nota de alegria em meio a essa tragédia do fracassado Egito faraônico e a ascensão definitiva de Roma.
Acompanho o mover das águas quentes do Nilo. O governo egípcio é forte e militarizado. Controla o Canal de Suez e tem papel importante nas negociações sobre Gaza e o Oriente Médio. Milhares de refugiados solicitam asilo: sudaneses, sírios, iemenitas, somalis, ucranianos. O Egito sempre foi a rota de proteção para povos fugitivos.
Os navios de papiro se deslocam ainda pelo rio Nilo, corredor natural, numa grande via de circulação humana, através dos séculos.
