Raquel Naveira

Que personagem trágico foi Nabucodonosor (642 a.C.- 562 a. C.), rei e governador do Império Babilônico. Um tirano qu exerceu o poder de forma cruel, injusta e autoritária, colocando sua vontade e sua sede de vingança acima das leis. Demonstrou, com seus atos de ferro, desdém e indiferença ao sofrimento alheio. Perseguiu, censurou, cometeu excessos. Tudo com a frieza de um cérebro gangrenado. Levou o povo de Deus ao cativeiro, às dores do exílio; destruiu Jerusalém, o Templo de Salomão, algo extremamente devastador para o exercício livre da fé. Humilhou e oprimiu.
Por outro lado, Nabucodonosor foi administrador eficiente, estrategista militar e amava a arquitetura. Os Jardins Suspensos da Babilônia, atual Iraque, foram uma das Sete Maravilhas do Mundo Antigo. A “Porta de Ishtar”, dedicada à deusa arcádia Ishtar, era suntuosa. Toda decorada com dragões e touros dourados.
Nabucodonosor aprendeu duramente sobre humildade. Contemplando a beleza de seu reino, proferiu a frase: “_Não é esta a grande Babilônia que eu construí?” Nesse momento, perdeu tudo. Enlouqueceu. A soberba conduz à queda. O seu sonho com uma gigantesca árvore derrubada tornou-se realidade. Ele perdeu a razão. Passou a viver como um boi, uma vaca. Andava de quatro, mugia, comia capim, num surto psicótico chamado “boantropia”. O fenômeno dos “therians” de hoje, pessoas que têm forte identificação com um animal, percebendo-se como um animal em um corpo humano, numa grave crise de identidade, remete a esse transtorno mental. Ao se afastarem da premissa de que somos feitos à imagem e semelhança de Deus, perdem a humanidade. Triste ver jovens se aproximando dos deuses zoomórficos, metade homem, metade animal.
Nabucodonosor, depois desse sofrimento intenso, num momento de lucidez, proclamou a soberania de Deus, quebrou o orgulho e recuperou seu trono. Abraçou o arrependimento e a restauração. Pensando nessa história, escrevi:
Fui rei,
Tinha um palácio de ouro
E, modelados no alabastro,
Ídolos cegos e impassíveis;
Andei sobre jardins suspensos
À sombra de ciprestes,
Amoreiras,
Pistaceiras,
Entre desenhos recortados de zimbro e buxo;
Com sangue, meus escravos
Construíram imensa escadaria,
Rival do céu,
Pedestal de um deus
Que baixaria à terra
Com veste de púrpura;
Arrasei templos,
Arranquei vasos sagrados
Para neles beber vinho
Com minhas amantes;
Levei povos ao cativeiro,
Iam arrastados e lentos
Como fantasmas no deserto;
Sonhos me perseguiam:
Estátuas partidas,
Árvores desfolhadas,
Enigmas que nem magos,
Feiticeiros
E astrólogos decifravam;
Terá sido visão?
Homens no meio do fogo
Louvando seu Senhor?
Haveria poder maior que o meu?
Desde esse dia
Vivo pelo campo,
Pastando como boi,
O corpo recoberto de penas de águia,
As unhas crescidas como garras,
Só o orvalho molha minha febre
Enquanto deliro.
Que bela é a virtude da humildade. Base de todo edifício espiritual. Reconhecer nossas limitações e fraquezas. É libertador termos consciência de que não somos superiores a ninguém. Largar a capa da ostentação e da empáfia pelas escadas. Respeitar o próximo. Sempre há algo a aprender com o outro. Ainda que a fascinante Babilônia continue a brilhar diante de nossos olhos, com seus tijolos de vidro azul.
