ndhi na Índia), a simplicidade, o vegetarianismo, a luta por justiça social.
Aos oitenta e dois anos, numa noite gelada, Tolstói foge de casa. Quer viver livre como um camponês anônimo. Ficar longe de qualquer cobrança. Esconde-se, tossindo e doente, numa estação ferroviária. Sofia chega, desesperada, sacoleja o corpo do marido, o vagão que range sobre os trilhos. Ele estava morto.
Voltemos a A Sonata a Kreutzer. Que romance feroz. Combina crítica à sociedade, reflexões sobre o casamento e a fidelidade. Narra em primeira pessoa a história de um viajante de trem que escuta o relato de um homem perturbado, Pozdníshev. Durante a jornada, o homem conta aos passageiros que casou por amor, mas logo percebeu que sua interação com a esposa era dominada pela luxúria e pelo ciúme. Sentia nojo e desprezo. O casamento se transformou numa convivência amarga, cheia de desconfiança, insatisfação e ressentimentos.
Certa vez, sua esposa passou a tocar violino junto com um jovem músico. Executaram a “Sonata a Kreutzer”, de Beethoven. Ele percebeu a eletricidade erótica entre os dois. Cordas, centelhas, faíscas. Força irracional. Instalou-se entre os artistas um clima de sedução, povoado de sementes de desastre. Possuído pela raiva, Pozdníshev mata a mulher, mata sua própria carne, liberta-se dos grilhões do desejo pela violência. Um erro fatal. O resto da vida atormentado pela culpa. O homem só vence o instinto pela compreensão de sua frágil e apodrecida natureza. A chave é a compaixão. O sexo é gerador de destruição quando separado do amor espiritual.
A leitura desse conflito conjugal é estranha, incomodativa, como neste trecho: “Isto começou desde os primeiros dias e prosseguiu o tempo todo, fortalecendo-se e encarniçando-se cada vez mais. Desde as primeiras semanas, senti no fundo da alma que eu fora apanhado, que saíra algo diverso do que eu esperava, que o matrimônio não só não constituía uma felicidade, como era algo muito penoso, mas, a exemplo dos demais, não queria confessá-lo a mim mesmo...”
O livro polêmico, publicado em 1889, foi censurado na Rússia. Sofia, a esposa de Tolstói, ficou abalada, coberta de vergonha com as comparações que o público fazia entre a ficção e o real. (Ai daquele que tentando matar o pecado, mata o amor!).
Depois dessa experiência cáustica, tive que me lavar lendo a concepção de casamento do místico libanês-americano, Kahlil Gibran (1883-1931) em seu livro O Profeta. Quanta sabedoria e sensibilidade. O casamento como união livre entre duas almas inteiras, que permanecem independentes e ligadas. Companheirismo, respeito, ajuda mútua. Alguns de seus conselhos: “Permanecei juntos, mas não demasiado próximos: pois os pilares do templo erguem-se separados, o carvalho e o cipreste não crescem à sombra um do outro.” E ainda: “Cantai e dançai juntos, e alegrai-vos, mas deixai cada um de vós estar sozinho, assim como as cordas de um alaúde estão sozinhas, embora vibrem com a mesma música.”
Sobre o casamento, veio-me à mente a palavra “comunhão”. Escrevi este poema:
Amo teu corpo,
Tua pele,
Teus músculos
Feitos de nervos,
Sangue,
Espasmos.
Amo tua alma,
Sinto-a na tua voz,
Nas tuas palavras
Que bebo,
Como se fossem mel,
No teu sopro quente,
Vapor em meu pescoço.
Amo tua alma
Como se fosse revestida de pele
E de músculos.
Amo teu corpo,
Como se fosse um sopro,
Uma voz.
Amo tua alma
Como se ela tivesse nervos
E se retesasse.
Amo teu corpo
Como se ele fosse um vapor etéreo,
Intocável.
Amo teu corpo
E tua alma
Com tal intensidade
Que te reconheço
Em qualquer espasmo,
Mel em meu pescoço.
Amo tua alma
E teu corpo
Com tal vivacidade
Que não desejo posse,
Mas suave entrega.
Teu corpo:
Eu o penso;
Tua alma:
Eu a vejo,
És sujeito
E objeto
Do meu amor.
Eu te comungo.
