Raquel Naveira

O vinho é um símbolo milenar, presente em diversas culturas e religiões desde os rituais antigos de colheita e banquetes até o cristianismo.
Há o vinho da alegria, da plenitude da vida, sinal de festa de casamento ampliada noite adentro. Regada pelo melhor vinho. É amor nupcial, fecundo e jubiloso como nas Bodas de Caná. Esse vinho aponta para outro: o da Última Ceia, o sangue derramado, o sacrifício, o transbordamento de sentido.
Por outro lado, o vinho da Babilônia, do sistema do mundo, é duro e ambíguo. Todas as nações beberam desse vinho e se corromperam. Vinho cheio de fúria, de sedução, de poder, de riqueza e domínio. Quem bebe desse vinho fica entorpecido, fascinado, sem discernimento moral, confuso. É uma mistura adulterada com metanol. Veneno em taça de ouro. Barbárie travestida de progresso.
O deus Baco ou Dionísio, cultuado na Antiguidade greco-romana, era luz e vertigem no mesmo cálice. Deus do prazer, da fertilidade, do teatro. Impressionante o quadro “O Jovem Baco”, de Caravaggio (1571-1610), o pintor italiano que criou uma obra possante, naturalista, às vezes brutal. Caravaggio tinha personalidade inquieta, enfrentou várias vicissitudes, cometeu um homicídio, faleceu em circunstâncias obscuras na Toscana, aos 38 anos. Foi genial, inovador, penetrou na realidade crua da condição humana. O seu jovem e pálido Baco, exposto num museu de Florença, é sensual, vulnerável, reclinado com uvas e folhas de videira nos cabelos. Toca ligeiramente o cordão do seu roupão frouxo e drapeado. Uma cesta de frutas apodrecidas sobre a mesa de pedra mostram que tudo é efêmero. Um jarro de vinho tinto. Com a mão esquerda nos oferece uma copa de vinho roxo. Há humor e ironia na sua face ruborizada. Transmite erotismo, fantasia e tentação.
Inspirada em Baco e nesse quadro dramático, escrevi o poema “Convite de Baco”:
Eu andava sozinho pelo vale
Quando descobri a uva e fiz dela o vinho,
Derramei-o pelo caminho
Pelo ninho de víboras das almas;
Seguiu-me um cortejo estranho
De homens vestidos de mulher,
De mulheres cobertas de pele,
De bodes tocando flautas;
Pelos campos e aldeias onde passamos,
Todos largaram seus labores
E vieram nos entoar louvores;
No palácio,
Minhas bacantes enfurecidas
Mataram o rei a dentadas
E ungi de sangue o trono
E a boca do outono.
Do meu cântaro de vinho
Escorrem promessas de carinho,
De coragem,
De cura sem medida;
No meu cântaro de vinho
Borbulharam a loucura e o prazer
Desde as safras mais antigas;
Com meu cântaro de vinho
Serás um deus
E não mais um verme mesquinho;
Vem comigo,
A minha trilha é sem espinho,
Ontem descobri a uva e fiz dela o vinho.
Baudelaire (1821-1867), o poeta, ensaísta, fundador da tradição moderna em poesia, escreveu em seu livro “O Spleen de Paris”: “É preciso estar sempre embriagado. Tudo está nisso: é a única questão. Para não sentir o horrível fardo do Tempo que quebra vossos ombros e vos inclina para a terra, é preciso embriagar-se sem trégua. Mas de quê? De vinho, de poesia ou de virtude, à vossa escolha.” Sim, é preciso encontrar algo que nos arrebate, que tire o peso da nossa finitude, da banalidade de nossa existência. O escape do ambiente que nos causa indignação a cada dia.
Quem me vê com lábios trêmulos, com a aparência febril de quem tem o espírito atribulado e suplicante, pensa, certamente, que ando embriagada.
