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Raquel Naveira*

 contos de outra vida 95f83

A literatura sofre, como todas as artes nestes tempos de crise, da progressiva inutilidade da própria arte numa sociedade consagrada à manipulação dos bens materiais e de consumo, alienada de valores autênticos tão necessários à existência de um mundo mais humanizado, solidário e significativo.

É nesse cenário que a poeta e advogada Frances de Azevedo se afasta da representação direta da realidade e dá preferência a um mundo mágico, simbólico, cheio de coincidências e atrações energéticas. Penetra assim no reino do subjetivo, do maravilhoso, mergulhando num terreno onírico, cheio de camadas. Parte do natural e vai, através da constatação da beleza e do segredo de todas as coisas, trazendo surpresas e analogias, metáforas do real.

O termo “surreal” tem um sentido elástico, ou seja, da criação de uma nova realidade. Na ficção contemporânea há uma identificação entre a realidade ficcional e a do mundo que nos circunda. Isso ocorre em Cortázar, Rulfo, Borges, Garcia Márques. Cria-se então uma outra realidade, a fantástica, a poética, a suprarrealidade.

O sobrenatural, portanto, está ligado ao natural. Caminha sempre para a descoberta do valor simbólico de tudo que nos rodeia. E tudo é passível de se tornar símbolo. Fantasia e realidade se unem até formar um universo único e total.

Frances nos mostra com narrativas leves a sua estupefação diante do enigma oculto da vida e da morte. Percebe ligações do inconsciente coletivo, com suas antenas de artista.

Façamos um passeio por alguns dos contos. Em “Estranho Verão”, o ambiente é uma praia, um jogo, sombras de outrora. Em “O Livreiro”, o homem que vive entre livros tem um ofício que já o coloca em outro plano, uma biblioteca, um labirinto criado pelas palavras, pelo conhecimento, pela imaginação.

“O Milagre” nos leva a refletir mais uma vez sobre a fugacidade da vida e a certeza da morte. “A morte é o fim de todos os milagres”, como escreveu o poeta Manuel Bandeira.

Diante de tantos abismos e incógnitas, Frances se pergunta no título de outro conto “Foi sonho?!” Bombas dramáticas, ruínas, uma igreja... é a prova material de um sonho materializado.

“Pós Guerra” nos coloca na Polônia, em plena Segunda Guerra Mundial. Conto histórico (como aprecio História!) e com um poderoso toque poético ao final.

Embarcamos num trem invisível, numa locomotiva que nos leva a paragens românticas, a uma festa, a uma valsa vienense.

Novamente entramos num trem em “Amor Eterno” carregando uma caixa de Pandora.

Em “De Volta ao Passado” há um pássaro (Seria um corvo como o de Edgar Alan Poe? Traria um recado de mau augúrio? ... São muitas as dúvidas que angustiam o ser humano).

Em “Outra Dimensão” a narradora nos conduz em seu carro veloz por uma estrada, a uma casa, à lembrança de uma mulher fantasma, problemática, a Vilminha.

“Encontro de Irmãs” nos embala em fraterno afeto, pois há irmãos mais que irmãos.

E assim, vamos sendo levados pela mão, pelas lembranças e casos contados por Frances de Azevedo, de maneira sussurrante. Juramos que esses contos só podem ser verdadeiros, feitos da mais pura verdade, aquela observada e sentida pela arguta escritora.

Suas frases são curtas, cristalinas, descritivas, misturando realismo e magia., que se derramam sutilmente pelo cotidiano, como epifanias, revelações, pequenos rasgos de consciência.

Frances nos ensina que o mistério está na aparência das coisas, em suas claras evidências. A aparência é sempre concreta, mas a substância, a essência, o conteúdo, o lado do avesso pertencem ao mundo paralelo (e também real) do sonho.

 

*Raquel Naveira é poeta, escritora.

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