
The Tragedy of Macbeth, de Shakespeare, é, a meu ver, o pináculo da poesia trágica de todos os tempos. A tragédia do general que mata seu amigo e protetor, o rei Duncan, para se apoderar do trono da Escócia. De regresso de uma campanha, Macbeth e outro general, seu amigo Banquo, ouvem de três feiticeiras a seguinte profecia: Banquo será pai de uma linhagem de reis e Macbeth se tornará Barão de Cawdor. "As bruxas fatídicas (...) com suas profecias, deflagraram as tendências para o crime que dormitavam na alma de Macbeth", enfatiza Carlos Alberto Nunes. Além de ter liquidado Duncan I, quer eliminar todo mundo que possa ameaçar seu poder, inclusive, acaba matando o próprio Banquo a quem teme, impressionado pelos vaticínios das bruxas e encorajado por sua ambiciosa esposa. O Barão de Glamis e governante da Escócia comete outros crimes, atormentado pelo "fantasma de Banquo" e por visões...Culpada pela arquitetura dos crimes e pela ascendência perniciosa que exercia sobre seu marido, Lady Macbeth enlouquece. Nessa obra, que enxergo como a mais sangrenta das tragédias de Shakespeare, quem sai na pior é mesmo o celerado Macbeth e sua mulher...O Barão de Cawdor rebelde não contava com Malcolm, o filho do rei assassinado, que havia fugido da Escócia, e seu camarada, o nobre Macduff...enfim, Macbeth é A encarnação do Mal...
Tive vontade recentemente de cotejar, confrontar as traduções de "Macbeth" que temos na praça. É evidente que não compulsei e estudei meticulosamente todas as versões para o português - quede tempo para tal tarefa? Existem outras, como as da papisa Bárbara Heliodora, Péricles Eugênio da Silva Ramos, Oliveira Ribeiro Neto e - salvo engano - Geraldo Silos. Mas reproduzo aqui, o mesmo excerto da obra em três traslados (o da dupla Oscar Mendes e F. Carlos de Almeida Cunha Medeiros; o de Manuel Bandeira para a Editora J. Olympio e a de Carlos Alberto Nunes para a Edições Melhoramentos):
Cena I
Ato Terceiro
Palácio
Mendes e Cunha Medeiros:
"Ser rei, nada significa; é preciso ser tranquilo! Nossos temores a respeito de Banquo são profundos e em sua natureza real vejo justos motivos de medo. É profundamente ousado e à têmpera indomável da alma acrescenta a prudência que lhe guia o valor para agir com êxito. Não existe ninguém de quem sinta temor, a não ser dele e meu gênio fica intimidado em sua presença como, segundo dizem, intimidava-se Marco Antônio diante de César. Ele censurou logo as feiticeiras, quando elas me deram o título de rei de ordenou-lhes que lhe fizessem uma predição. Então, profeticamente, elas o saudaram como pai de uma linhagem de reis. Sobre minha cabeça, colocaram elas uma coroa infrutífera e puseram um cetro estéril em minhas mãos que me será arrancado por mão estranha, pois não possuo filho que me possa suceder. Sendo assim, foi para a posteridade de Banquo que eu maculei minha alma, por ela assassinei o bondoso Duncan, só por ela derramei o ódio no vaso de minha paz e entreguei a joia de minha vida eterna ao inimigo comum do gênero humano, para fazê-los reis, para fazer reis os filhos de Banquo! Antes que isso aconteça, vem, Destino, desce à liça e lutemos, eu e tu, até a morte..."
Manuel Bandeira (em versos, como no original, é claro...)
"Ser o rei
Não é nada: há que sê-lo sem perigo
Banquo inspira-nos medos. Nele aponta
Algo que é de temer: tem grande audácia;
E à têmpera; indomável de su'alma
Alia uma prudência que encaminha
O seu valor a agir com segurança
Só nele vejo alguém cuja existência
Me atemoriza; o gênio que preside
À minha vida inclina-se ante o dele;
Como o de Marco Antônio ante o de César,
Segundo contam. Increpou sem medo
As três velhas fatídicas, ouvindo-as
Dar-me o nome de rei, depois mandou-lhes
Que lhe falassem, e elas o saudaram
Em palavras proféticas, com o título,
Senão de rei, de pai de uma linhagem
De reis: puseram sobre a minha testa
Uma coroa estéril, colocaram-me
Nas mãos um cetro que outras mãos de
estranha
Estirpe hão de arrancar-me nenhum filho
Meu sucedendo-me! E se for destarte,
Pelos filhos de Banquo é que manchado
Terei minh'alma, assassinado o nobre
Duncan; por eles, que verti no cálix
De minha paz rancores, só por eles!
Para fazê-los reis - reis os rebentos
De Banquo! - terei dado ao inimigo
Comum da espécie humana a minha joia
Imortal! Ah, mas antes que assim seja,
Desce à estacada, ó meu destino, e em
transe
De vida e morte, enfrenta-me!"
Do assombrosamente erudito Carlos Alberto Nunes:
"Ser rei assim, é nada; é necessário
sê-lo com segurança. É muito grande
nosso medo de Banquo; em sua postura
soberana domina qualquer coisa
que deve ser temido. É corajoso
como poucos e à têmpera indomável
do espírito une uma sabedoria
que faz o valor no alvo acertar sempre.
Tirante ele, não há pessoa alguma
de quem eu tenha medo, e junto dele
meu gênio se intimida, como dizem que com o de Marco Antônio acontecia,
quando junto de César. Dirigiu-se
corajoso às irmãs, interpelando-as
quando o nome de rei elas me deram,
forçando-as a falar-lhe a seu respeito,
ao que elas, quais videntes, o saudaram
como pai de uam série de monarcas.
Na cabeça puseram-me a coroa
sem frutos e nas mãos o cetro estéril,
para que mo arrebate um punho estranho
pois para herdeiro nenhum filho tenho.
Se fôr assim, para a posteridade
de Banquo, tão-somente, sujei a alma;
matei para eles o gracioso Duncan;
por causa deles ódio pus no vaso
da minha paz, havendo entregue a minha
joia eterna ao comum imigo do homem,
para fazê-los reis, para dos filhos
de Banquo fazer reis! Antes que venha
isso a se dar, que à liça baixe o fado,
para o combate eterno. (...)"
E então, leitor, qual das transposições prefere?
