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  • Fonte: Gabriel Kwak

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 The Tragedy of Macbeth, de Shakespeare, é, a meu ver, o pináculo da poesia trágica de todos os tempos. A tragédia do general que mata seu amigo e protetor, o rei Duncan, para se apoderar do trono da Escócia. De regresso de uma campanha, Macbeth e outro general, seu amigo Banquo, ouvem de três feiticeiras a seguinte profecia: Banquo será pai de uma linhagem de reis e Macbeth se tornará Barão de Cawdor. "As bruxas fatídicas (...) com suas profecias, deflagraram as tendências para o crime que dormitavam na alma de Macbeth", enfatiza Carlos Alberto Nunes. Além de ter liquidado Duncan I, quer eliminar todo mundo que possa ameaçar seu poder, inclusive, acaba matando o próprio Banquo a quem teme, impressionado pelos vaticínios das bruxas e encorajado por sua ambiciosa esposa. O Barão de Glamis e governante da Escócia comete outros crimes, atormentado pelo "fantasma de Banquo" e por visões...Culpada pela arquitetura dos crimes e pela ascendência perniciosa que exercia sobre seu marido, Lady Macbeth enlouquece. Nessa obra, que enxergo como a mais sangrenta das tragédias de Shakespeare, quem sai na pior é mesmo o celerado Macbeth e sua mulher...O Barão de  Cawdor rebelde não contava com Malcolm, o filho do rei assassinado, que havia fugido da Escócia, e seu camarada, o nobre Macduff...enfim, Macbeth é A encarnação do Mal...

Tive vontade recentemente de cotejar, confrontar as traduções de "Macbeth" que temos na praça. É evidente que não compulsei e estudei meticulosamente todas as versões para o português - quede tempo para tal tarefa? Existem outras, como as da papisa Bárbara Heliodora, Péricles Eugênio da Silva Ramos, Oliveira Ribeiro Neto e - salvo engano - Geraldo Silos. Mas reproduzo aqui, o mesmo excerto da obra em três traslados (o da dupla Oscar Mendes e F. Carlos de Almeida Cunha Medeiros; o de Manuel Bandeira para a Editora J. Olympio e a de Carlos Alberto Nunes para a Edições Melhoramentos):

Cena I

Ato Terceiro

Palácio

Mendes e Cunha Medeiros:

"Ser rei, nada significa; é preciso ser tranquilo! Nossos temores a respeito de Banquo são profundos e em sua natureza real vejo justos motivos de medo. É profundamente ousado e à têmpera indomável da alma acrescenta a prudência que lhe guia o valor para agir com êxito. Não existe ninguém de quem sinta temor, a não ser dele e meu gênio fica intimidado em sua presença como, segundo dizem, intimidava-se Marco Antônio diante de César. Ele censurou logo as feiticeiras, quando elas me deram o título de rei de ordenou-lhes que lhe fizessem uma predição. Então, profeticamente, elas o saudaram como pai de uma linhagem de reis. Sobre minha cabeça, colocaram elas uma coroa infrutífera e puseram um cetro estéril em minhas mãos que me será arrancado por mão estranha, pois não possuo filho que me possa suceder. Sendo assim, foi para a posteridade de Banquo que eu maculei minha alma, por ela assassinei o bondoso Duncan, só por ela derramei o ódio no vaso de minha paz e entreguei a joia de minha vida eterna ao inimigo comum do gênero humano, para fazê-los reis, para fazer reis os filhos de Banquo! Antes que isso aconteça, vem, Destino, desce à liça e lutemos, eu e tu, até a morte..."

Manuel Bandeira (em versos, como no original, é claro...)

"Ser o rei

 Não é nada: há que sê-lo sem perigo

 Banquo inspira-nos medos. Nele aponta

 Algo que é de temer: tem grande audácia;

 E à têmpera; indomável de su'alma

 Alia uma prudência que encaminha

 O seu valor a agir com segurança

 Só nele vejo alguém cuja existência

 Me atemoriza; o gênio que preside

 À minha vida inclina-se ante o dele;

 Como o de Marco Antônio ante o de César,

 Segundo contam. Increpou sem medo

 As três velhas fatídicas, ouvindo-as

 Dar-me o nome de rei, depois mandou-lhes

 Que lhe falassem, e elas o saudaram

 Em palavras proféticas, com o título,

 Senão de rei, de pai de uma linhagem

 De reis: puseram sobre a minha testa

 Uma coroa estéril, colocaram-me

 Nas mãos um cetro que outras mãos de

                                            estranha

Estirpe hão de arrancar-me nenhum filho

 Meu sucedendo-me! E se for destarte,

 Pelos filhos de Banquo é que manchado

 Terei minh'alma, assassinado o nobre

 Duncan; por eles, que verti no cálix

 De minha paz rancores, só por eles!

 Para fazê-los reis - reis os rebentos

 De Banquo! - terei dado ao inimigo

 Comum da espécie humana a minha joia

 Imortal! Ah, mas antes que assim seja,

 Desce à estacada, ó meu destino, e em

                                                      transe

 De vida e morte, enfrenta-me!"

Do assombrosamente erudito Carlos Alberto Nunes:

"Ser rei assim, é nada; é necessário

 sê-lo com segurança. É muito grande

 nosso medo de Banquo; em sua postura

 soberana domina qualquer coisa

 que deve ser temido. É corajoso

 como poucos e à têmpera indomável

 do espírito une uma sabedoria

 que faz o valor no alvo acertar sempre.

 Tirante ele, não há pessoa alguma

 de quem eu tenha medo, e junto dele

 meu gênio se intimida, como dizem que com o de Marco Antônio acontecia,

 quando junto de César. Dirigiu-se

 corajoso às irmãs, interpelando-as

 quando o nome de rei elas me deram,

 forçando-as a falar-lhe a seu respeito,

 ao que elas, quais videntes, o saudaram

 como pai de uam série de monarcas.

 Na cabeça puseram-me a coroa

 sem frutos e nas mãos o cetro estéril,

 para que mo arrebate um punho estranho

 pois para herdeiro nenhum filho tenho.

 Se fôr assim, para a posteridade

 de Banquo, tão-somente, sujei a alma;

 matei para eles o gracioso Duncan;

 por causa deles ódio pus no vaso

 da minha paz, havendo entregue a minha

 joia eterna ao comum imigo do homem,

 para fazê-los reis, para dos filhos

 de Banquo fazer reis! Antes que venha

 isso a se dar, que à liça baixe o fado,

 para o combate eterno. (...)"

E então, leitor, qual das transposições prefere?

 

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