
Oração como Membro Honorária da Academia Cristã de Letras
Há pessoas cuja existência deixa marcas profundas não apenas pelo que realizam, mas pelo modo como vivem. O professor, médico-escritor e acadêmico Juarez Avelar é uma dessas raras personalidades.
Hoje, ao receber das suas mãos o título de Membro Honorário da Academia Cristã de Letras, vivo um momento muito significativo da minha trajetória. Esta honraria transcende o reconhecimento acadêmico ou literário. Carrega o valor imensurável de ser a mim concedido pelo presidente Juarez Avelar, cuja vida sempre representou um referencial de dignidade, sabedoria, ética médica, amante das letras, legado do compromisso com o bem e com a compaixão.
Na primeira vez em que entrei na Academia Cristã de Letras, na posse da primeira gestão de Juarez Avelar, encantei-me com o acolhimento, a recepção e o elevado e nobre nível literário dos acadêmicos. Passei a frequentar eventos, a fortalecer laços de amizade e de sintonia literária.
O patrono da Academia Cristã de Letras, São Francisco de Assis, confere-lhe um diferencial ainda mais especial, pela reverência à oração que carrega seu nome, lida em todas as tertúlias literárias. Essa oração é um poema e analisei a arquitetura textual de cada verso, a estética, a semântica, o teor de cada palavra e a filosofia que a envolve.
Onde houver ódio, que eu leve o amor.
Onde houver ofensa, que eu leve o perdão.
Onde houver discórdia, que eu leve a união...
Cada verso possui três partes fundamentais, ou seja, três elementos:
1º. Elemento: ("Onde houver ódio, ...ofensa, ...discórdia.") corresponde ao reconhecimento da realidade e de fatos.
Não se negam o ódio, nem a ofensa, nem a discórdia. Pelo contrário, essa parte inicial do verso vê o mundo como é. Filosoficamente, a expressão “Onde houver” – revela a postura realista da existência e ocorrência de conflitos, nos mais variados contextos e cenários.
2º. Elemento: ("...que eu leve") é assumir a consciência de quem deve agir.
O foco está em pegar o leme da própria ação. Tomar para si, pessoalmente, a responsabilidade de sujeito, no pronome pessoal reto- EU - 1ª. pessoa do singular. O "eu" não se põe como vítima ou expectador das circunstâncias, mas torna-se agente. “Que eu leve” no modo imperativo afirmativo. Embora o modo verbal imperativo não se conjugue na 1ª. pessoa do singular por não se dar ordens a si mesmo, como Licença poética, nessa estrutura textual, permite-se dar esse comando a si próprio.
3º. Elemento: (...o amor ...o perdão ...a união) objetos da ação que podem se transformar em superação.
Superação no sentido de "elevar-se" ou "ir mais alto", na transmutação de alterar a essência semântica, a natureza do conflito do ódio... da ofensa... da discórdia.
Portanto, “ Onde houver ódio”, não se responde ao ódio com ódio, com revanchismo, mas com algo qualitativamente diferente. Onde houver ódio, que eu leve o quê? Que eu leve o amor. Onde houver ofensa, que eu leve o quê? Que eu leve o perdão.
Cria-se, dessa forma, a lógica de transcendência. Consciência da realidade → eu agente → ação transformadora.
Há uma inversão filosófica do que costuma ocorrer no mundo.
Há ódio → como acabar com ele. Com violência? Não. Que seja eu quem introduz o amor. Essa mudança é estrutural. A pessoa se oferece como sujeito da ação. Ela desloca o centro da ética da expectativa para a responsabilidade pessoal. E quebra o paradigma de dente por dente, olho por olho, da retaliação como ocorre em conflitos. Essa liberdade advém de atitude interior, não das circunstâncias externas.
Na visão aristotélica - ninguém se torna virtuoso apenas conhecendo o bem. A virtude nasce da prática. "que eu leve o amor onde houver ódio" é um exercício da virtude. A pessoa torna-se amorosa ao agir amorosamente. O exercício da virtude ocorre pela perseverança de ações e atitudes repetidas a criar uma prática, um hábito que se consolidam em caráter pautado pelo equilíbrio, pelo bem, pela justiça e pela temperança.
Na visão estoica, o Estoicismo distingue o que depende de nós do que não depende de nós. Não depende de mim que exista ódio. Nem depende de mim se serei odiado, mas tenho o controle de como agirei se o for, independente de julgamentos externos. Depende de mim a resposta de amor que darei ao ódio.
O teor de cada verso segue essa lógica:
"Onde houver erro, que eu leve a verdade."
"Onde houver desespero, que eu leve a esperança."
"Onde houver tristeza, que eu leve a alegria.".
"Onde houver trevas, que eu leve a luz."
Não se trata de maniqueísmo, onde tudo é dividido rigidamente entre o bem absoluto e o mal absoluto. O amor, o perdão, a esperança, a alegria, a luz... não aparecem como simples opostos psicológicos, mas como forças capazes de interromper o ciclo do ódio, da ofensa, da violência, da vingança...
A força da repetição: "Onde houver erro, que eu leve a verdade” Onde houver desespero, que eu leve a esperança" "Onde houver tristeza, que eu leve a alegria." "Onde houver trevas, que eu leve a luz" cria um ritmo, quase litúrgico, uma ênfase introjetada. Revela uma ética ativa: em vez de questionar "o que o mundo pode me dar?", a oração questiona "o que eu posso oferecer ao mundo?".
O poema de São Francisco de Assis faz a apologia da paz como iniciativa pessoal, da coerência entre palavras e vida, um código de agir para qualquer época.
Há pessoas que se destacam pelos seus códigos de agir na promoção da paz a serem agraciadas anualmente com Prêmio Nobel da Paz, na Noruega.
Com esses valores e códigos de agir preconizados na oração de São Francisco de Assis, é que eu recebo a outorga de acadêmica honorária na Academia Cristã de Letras, e reverencio-me a todos vocês que me acolheram. Comprometo-me a reconhecer a palavra como a maior arma do ser humano, comprometo-me a ser agente da paz, e comprometo-me a honrar essa distinção hoje recebida, que muito me enobrece.
Ana Maria Melo Negrão – 17 de julho de 2026.
