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PRIMEIRO CONCURSO LITERÁRIO PAULO NATHANAEL PEREIRA DE SOUZA

ORGANIZAÇÃO: Márcia Etelli Coelho (Cadeira 12) - Di Bonetti (Cadeira 24) - Frances de Azevedo (Cadeira 39)

PRESIDENTE: Juarez de Moraes Avelar (Cadeira 26)

AVALIADORES POESIA: José Domingos de Lima Pezza (Cadeira 18) -  Thais Fernanda Maul Bizarria (Cadeira 35) - João Baptista de Oliveira (Cadeira 38)

AVALIADORES PROSA:: Raquel Maria Carvalho Naveira (Cadeira 07) - Geraldo Nunes Silva (Cadeira 27) - Vitor Santos (Membro Correspondente)

 POESIA E TROVA

Poesia - Primeiro Lugar: ANA MARIA DO NASCIMENTO

SABEDORIA

Podemos afirmar, precisamente,
que em toda assinalada trajetória
nos vale conceber distinta história,
de modo perspicaz e complacente.

Sabedoria mostra-se presente,
consolidando a luta por vitória
capaz de acentuar nossa memória,
de forma devotada e inteligente.

Nesse caminho, a luz da educação
costuma abrir as portas do futuro
e nos proporcionar evolução...

Dessa maneira — forte e bem seguro—
Paulo Nathanael, sem presunção,
deveras conseguiu driblar o obscuro.

Poesia - Segundo lugar: SHIRLEY OLIVEIRA FERRO

O GUARDIÃO DA SABEDORIA

Mestre que ascende coo aurora,
Em cada mente sedenta de clarão,
Sua luz o tempo ancora,
Sua voz germina a educação.

Na lousa o verbo em plenitude,
No livro o farol a ensinar,
Rompeu grilhões da inquietude,
Fez do saber verbo a libertar.

Na cadeira Um , chama primeira,
Na academia templo do bem,
Cristã de Letras, voz altaneira,
Onde a história floresce além.

Guiou jovens, com ternura,
Derrubou muros do ontem fechado,
Transmutou dor em candura,
Fez do ensino, um solo sagrado.

Cada aula visão que se eleva,
Cada gesto, um ato fundador,
Semeou o saber que preserva,
O futuro em forma de amor.

Hoje ecoa em palavra e pensar,
Em livros silêncio e atenção,
Mestre eterno do ensinar,
A sabedoria foi sua missão.

Poesia - Terceiro Lugar: Empate - JANETE FRANCISCO SALES

AVIDEZ DE APRENDER

Mesmo feliz ou triste, todo dia
eu me refaço... devo confessar
que abraço as emoções sem covardia
e ponho as esperanças num altar...

Eu aprendi a rir do meu pesar,
a ver a luz na estrada mais sombria,
a suprimir o mal sem me curvar;
somente peço a Deus sabedoria...

Do ontem, guardo a vivência na lembrança,
seguramente, são lições de outrora,
a avidez de aprender jamais me cansa.

Eu planto o amor até na estrada estreita,
ele virá no resplendor da aurora,
sei esperar a hora da colheita...

Poesia - Terceiro Lugar: Empate: ELVIRA GLÓRIA DRUMMOND MIRANDA

O SEMEADOR DE SABERES

Missão de mestre, qual semeador,
é de plantar saberes, nos canteiros;
sereno, lança ao solo a ideia-flor
que o vento espalha em tons alvissareiros…

O mestre leva à mão um regador
e aduba, em cada mente, os grãos primeiros;
botões que, sob a luz de um grande amor,
florescem frente aos olhos companheiros…

Algumas das sementes, com carinho,
o mestre planta ao longo do caminho,
crescendo à revelia d’olhos seus…

Tem fé de que, no solo, se consagre…
(o amor, ramificado, faz milagre)
e entrega o seu jardim nas mãos de Deus!

Poesia - Terceiro Lugar: Empate RICARDO CAMACHO

ESCRITURAS

No véu da noite e à luz de um lindo dia,
Os livros literários, sacrossantos,
Abrem sorrisos... secam muitos prantos
Das faces cheias de melancolia...

Ao mundo levam mais sabedoria,
Simbolizando relicários santos
Que espalham luzes nos vitais recantos
Com o esplendor de prosa ou poesia...

Bendita a luz das sacras escrituras
Que se eternizam graças às leituras
Dos dedicados olhos fecundantes...

Em suas páginas, a vida eterna
Ganha o sentido fora da caverna,
Desde que saiam sempre das estantes!

PROSA - TEXTOS VENCEDORES

PROSA - Primeiro Lugar: OLÍVIA MARTINS OLIVEIRA CAINELLI

A ESCOLA COMO HORIZONTE DE POSSIBILIDADES

A escola amanhece antes de todos. Mesmo fechada, já está acordada. Há nela um silêncio antigo, feito de ecos e expectativas, como se cada parede soubesse que o dia trará mais do que aulas: trará encontros. Quando o portão se abre, não se entra apenas em um prédio — atravessa-se um limiar. Do lado de dentro, o mundo começa a ser reinventado.

Pulsa nos passos apressados dos estudantes, nos cadernos contornados de sonhos ainda sem forma, nos olhares curiosos, no silêncio das palavras ainda não pronunciadas. Cada sala guarda invisíveis histórias de vida, nos passos da infância, da adolescência, mediadas por alguém que, apesar dos inúmeros desafios, ao escolher ser professor, acredita na educação como um ato de esperança.

Entre paredes muitas vezes descascadas e recursos nem sempre suficientes, professores exercem um ofício que vai além do conteúdo. São mediadores de futuros possíveis. Um elogio direcionado, um livro indicado na hora certa, uma conversa depois da aula pode deslocar destinos. Quantas vidas não foram silenciosamente transformadas por alguém que acreditou antes mesmo de haver provas? A escola é esse lugar improvável. E, ao agir na urgência, alguém olha para um aluno e enxerga mais do que ele próprio consegue divisar.

Há dias em que o cotidiano escolar parece repetitivo. O sinal toca, as aulas começam, o conteúdo segue o planejamento. No entanto, basta um pequeno acontecimento para que tudo ganhe outro sentido: uma pergunta inesperada, uma descoberta coletiva, um debate não programado. Nesses momentos, a escola revela sua essência mais profunda — não a de um espaço de respostas prontas, mas a de um lugar onde se aprende a perguntar, formular hipóteses, administrar o tempo, lidar com as frustrações, respeitar e cuidar da vida em todos os seus aspectos.

Para muitos, a escola representa refúgio. Em um mundo marcado por desigualdades, violência e ausências, ela pode ser o único ambiente de escuta, de cuidado e de previsibilidade. O sinal que toca, o horário definido, a rotina compartilhada criam uma sensação rara de pertencimento. Mesmo por algumas horas, todos dividem o mesmo chão, o mesmo tempo e a mesma chance de aprender algo novo. Essa igualdade provisória já é, por si só, uma possibilidade revolucionária.

Mas a escola também é conflito. É o lugar onde diferenças se encontram e nem sempre se entendem. Opiniões colidem, identidades se afirmam, silêncios são quebrados. E é justamente nesse atrito que mora seu potencial formador. Aprender a conviver com o outro — com sua história, sua linguagem, sua visão de mundo — talvez seja uma das lições mais difíceis e mais necessárias nestes tempos atuais. E, ao apresentar diferentes perspectivas de falas, escutas e olhares, expande consciências e transforma vidas.

A escola como horizonte de possibilidades não promete sucesso garantido nem caminhos fáceis. Ela oferece algo mais sutil e mais potente: a chance de sonhar. Imaginar futuros, profissões, mundos. Imaginar-se capaz. E para quem aprende a idealizar, o horizonte nunca mais se fecha. Ela, assim, cumpre sua tarefa mais profunda: não formar apenas alunos, mas sujeitos em movimento, atentos ao que são e ao que ainda podem vir a ser.

Paulo Freire, patrono da Educação Brasileira, com seu legado, sussurra ainda hoje, pelos cantos dos espaços escolares, ao lembrar que: “A educação não transforma o mundo. Educação muda as pessoas. Pessoas transformam o mundo”.

E a escola confirma essa verdade em gestos mínimos, quase imperceptíveis, sempre que alguém encontra a própria voz, identifica uma iluminada ideia onde antes havia sombra e, sobretudo, ao perceber-se um agente transformador do mundo com os olhos fixos no horizonte de seu caminhar.

PROSA - Segundo lugar: ALCIONE ALCÂNTARA GONÇALVES

A LIÇÃO QUE NÃO ESTAVA NO QUADRO

A escola daquela manhã parecia igual a todas as outras: pátio barulhento, corredores despertos pelo tilintar do sinal, professores apressados equilibrando livros e cadernos.

Entretanto, havia algo no ar — como se a memória de alguém maior do que aquelas paredes, decidisse visitar-nos silenciosamente.

Entrei na sala e encontrei os alunos inquietos, falando de tudo e de nada, como convém à juventude. Abri o diário de classe, mas, antes que pudesse começar a chamada, reparei no velho quadro-negro.

Um risco branco atravessava sua superfície, como uma cicatriz do tempo. Nesse instante, recordei uma ideia fundamental da filosofia de Aristóteles: a educação é o caminho pelo qual a cidade se torna justa, humana e duradoura. Não era uma frase escrita em pedra, mas um pensamento que atravessou séculos — e que o educador Paulo Nathanael gostava de parafrasear, ao dizer que sem educação, nada permanece.

Ele costumava reinterpretar o espírito aristotélico, aproximando-o da realidade brasileira e defendendo, com convicção, que só a formação sólida é capaz de sustentar uma sociedade. Aquela lembrança transformou a aula antes mesmo que ela começasse. Dirigi-me à classe com uma pergunta simples:— Para vocês, o que é, afinal, uma escola? Eles se entreolharam, surpresos com a ausência do conteúdo habitual.

Aos poucos, surgiram as respostas: “Um lugar para aprender.” “Para fazer amigos.” “Para ter futuro.” “Para não ficar parado.” chei bonito. Mas percebi que faltava algo. Contei-lhes, então, que Paulo Nathanael via a escola como força transformadora, não por ser depósito de informações, mas por ser espaço de cultivo humano. Falei do homem que dedicou a vida à educação brasileira, que escreveu livros, formou professores, atuou em instituições e defendeu, com vigor, a ideia de que a formação deve moldar o caráter e elevar a sociedade — exatamente como Aristóteles pregava em seu tempo. silêncio que se instalou na sala me ensinou mais do que anos de magistério. Era o silêncio que nasce quando uma verdade encontra abrigo. Ao final da aula, um aluno se aproximou— Professor, por que o senhor perguntou aquilo hoje? Apontei para o quadro-negro: _ Porque, antes de aprender qualquer matéria, vocês precisam saber por que estão aqui.

A escola não é apenas prédio. É projeto. É promessa. É futuro. A escola são vocês. Ele sorriu, como quem descobre uma chave. E percebi que havíamos vivido uma lição que não estava escrita — mas que Aristóteles inspiraria e Paulo Nathanael certamente aplaudiria. Afinal, a educação é mesmo a estrada que sustenta o amanhã. E cada aluno, um começo que renasce.

PROSA - Terceiro lugar: FERNANDO ANTÔNIO GRUPELLI JÚNIOR

A ESCOLA DO ENCONTRO

Foi quando passei em frente à minha escola primária, no interior do Rio Grande do Sul, que uma lembrança me puxou pelo braço.

Era uma aula de lógica. No quadro, a frase: “João tem uma bola. Todas as bolas são azuis. De que cor é a bola de João?”

A resposta exigida era óbvia, mas, para mim, insuficiente. Eu amava futebol desde menino. Mas azul nunca era só azul. Azul era o céu das manhãs no interior, era o cansaço quieto dos domingos, era a sombra fria que a bola fazia no chão quente. Que azul era aquele, afinal — claro, gasto, vivo, triste? Eu olhava para a bola azul e percebia um mundo ali dentro.

A professora esperava uma palavra. Eu tinha várias.

Lembro de ter escrito apenas “azul”. Não porque estivesse convencido, mas porque era o que cabia naquele espaço.

A escola funcionava assim — e continua a ser assim depois de tantas décadas. Não ensinava a perguntar, nem mesmo a divergir da resposta. Era uma escola que não gostava da pergunta.

Anos depois, já adulto, fui parar em uma escola de engenharia: a escola filha da Ciência. Nela, o gesto fundador era a pergunta. Ali, eu podia experimentar, perguntar à vontade, testar respostas e concluir por conta própria. Foi um avanço. Eu me animei. Mas havia um problema. Na verdade, uma tristeza discreta: ninguém perguntava por quem pergunta. Formavam-se mentes brilhantes, mas corações ausentes e distantes.

Foi então que me deparei com outra escola. Não tinha prédio fixo nem currículo impresso. Eu a chamei de Escola do Encontro.

Ali tudo começava quando alguém encontrava alguém. Antes da teoria, havia um “vem e segue-me”. A verdade não era um conteúdo entregue, mas algo que acontecia entre duas pessoas. Era relacional.

Certa vez, alguém quis saber como seria possível tornar-se inocente de novo, como uma criança. A resposta do mestre não veio em fórmula, mas em vento — algo que renova todas as coisas e que, quando é forte o suficiente, não deixa nada de pé.

Em outra ocasião, uma mulher com sede de água e de vida, no calor do meio-dia, diante de um poço, queria saber quem era aquele mestre. A resposta não veio com currículos ou títulos, mas com a simplicidade de uma água que não é parada como a do poço, mas que jorra de dentro para fora.

Nem sempre a resposta agradava. Um homem rico, que já havia conseguido comprar tudo o que a vida podia lhe dar, queria saber como adquirir algo que a morte não pudesse tirar. Ouviu que deveria abrir mão de tudo. Saiu aborrecido, porque não estava disposto a fazê-lo.

Nem sempre a vida era apenas pergunta e resposta. Mas mesmo assim era aprendizado. Houve uma mulher que não perguntou nada. Quebrou um frasco caríssimo de perfume e o deixou escorrer pelos pés dele. A sala inteira calculava o prejuízo. Ele não falou de custo. Falou de amor. A aula não foi de economia, mas daquilo diante do qual a gente já não consegue economizar.

Quase no fim de sua vida, um juiz — homem poderoso — o interrogou. Queria saber o que era a verdade. Pergunta filosófica, difícil, diante da qual sábios ainda se debruçam para respondê-la, mas talvez simples demais para quem entende o encontro.

O juiz era como a minha primeira escola. Queria uma resposta para resolver uma questão burocrática. Mas a resposta não veio, porque a verdade não cabia naquela lacuna histórica.

Sem compreender que a verdade era uma pessoa — e não uma teoria, muito menos um entrave — o juiz não quis sequer ouvir o silêncio. E saiu.

Diferentemente desse último homem, eu acabei encontrando nesse mestre — encarnação de todos os meus azuis em suas múltiplas tonalidades — não uma resposta, mas uma presença diante da qual eu finalmente quis permanecer.